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Panorama Semanal do Mercado de Fertilizantes

  • Foto do escritor: Ricardo Lima de Souza
    Ricardo Lima de Souza
  • 20 de abr.
  • 6 min de leitura

O mercado de fertilizantes no Brasil encerra a semana de 14 a 20 de abril sob forte pressão de oferta e custos elevados. O cenário geopolítico segue como principal vetor: o conflito no Oriente Médio mantém o risco de interrupção do Estreito de Ormuz; a China não dá sinais de afrouxamento das restrições às exportações; e o Ministério da Agricultura (Mapa) reuniu-se nesta semana com a Anda para discutir estratégias de redução da dependência externa -- que hoje chega a 85% dos fertilizantes consumidos no país.


A semana também foi marcada por dois movimentos estruturais importantes: o Rabobank revisou para baixo o consumo nacional de fertilizantes em 2026 (de 49 para 47,2 milhões de toneladas), e a Mosaic anunciou a paralisação do Complexo de Araxá-MG, reduzindo em cerca de 1 milhão de toneladas por ano a produção brasileira de fosfato.


Nitrogenados: Ureia firme — mercado cauteloso nas negociações


Ureia

A ureia mantém patamares historicamente elevados nesta semana, operando entre:

US$ 740 a US$ 770 por tonelada CFR Brasil

O patamar representa alta acumulada de 76% no primeiro trimestre de 2026, segundo a CNN Brasil/Itaú BBA, impulsionada pela instabilidade no Estreito de Ormuz -- rota pela qual escoa cerca de 35% das exportações mundiais do produto. O Irã e Omã, que em 2025 responderam por 18,4% das importações brasileiras de ureia (1,5 milhão de toneladas), seguem com embarques comprometidos.

No mercado físico, contudo, há um movimento de cautela. Com os preços muito elevados e a relação de troca pressionada, parte dos compradores segue adiando decisões ou fracionando volumes. O volume de ureia contratado para a safra 2026/27 ainda está abaixo das médias históricas para o período.

Tendência: Mercado firme com alta volatilidade. Risco de novos picos caso a Índia lance novo leilão de importação ou o conflito escale.



Sulfato de Amônio

O sulfato de amônio (SAM) segue como alternativa na relação custo por ponto de nitrogênio. As cotações operam entre US$ 220 e US$ 230/t CFR Brasil. Há volume significativo de SAM programado para desembarcar nos portos brasileiros, o que deve manter a oferta abundante no curto prazo, segundo a StoneX.



Fosfatados: MAP em máxima histórica recente — Mosaic paralisa Araxá


MAP (Monoamônio Fosfato)

O MAP permanece como o fertilizante de maior risco estrutural desta semana:

US$ 880 a US$ 910 por tonelada CFR Brasil


Os fatores de pressão são múltiplos e se reforçam mutuamente:

  • Restrições da China: até 80% dos embarques chineses de fosfatados estimados bloqueados ou sob cota rígida, sem perspectiva de suspensão antes de agosto

  • Custo do enxofre elevado: matéria-prima essencial na fabricação do MAP, pressionando toda a cadeia de fosfatados

  • Mosaic paralisa Araxá: a empresa anunciou nesta semana a paralisação do Complexo de Mineração e Química de Araxá (MG) e a suspensão das atividades de Patrocínio, reduzindo cerca de 1 milhão de toneladas/ano da produção nacional de fosfato — movimento que pode pressionar ainda mais a oferta interna


Alerta: O Mapa avalia risco de déficit de até 3 milhões de toneladas de fosfatados em 2026. Com a paralisação da Mosaic, esse risco se torna mais concreto.


Tendência: Pressão máxima. Risco de falta física e baixa flexibilidade de negociação. Decisões de compra que puderem ser antecipadas merecem atenção imediata.



SSP e TSP

O SSP e o TSP seguem absorvendo demanda substituta ao MAP. O TSP opera entre US$ 560 e US$ 590/t CFR. O SSP acumula alta superior a 20% na comparação anual. O Brasil vem diversificando importações para esses produtos, que têm menor concentração de P2O5, mas custo por tonelada mais acessível.



Potássicos: KCl com alta gradual e importação recorde em março


Cloreto de Potássio (KCl)

O KCl apresenta maior estabilidade relativa, porém segue em trajetória de alta moderada:

US$ 385 a US$ 400 por tonelada CFR Brasil


Destaques desta semana:

  • Importação recorde em março: o Brasil importou 1,37 milhão de toneladas de KCl em março de 2026, alta de 36,7% frente a março de 2025 e novo recorde para o mês

  • Alta de 20% em 12 meses: o KCl acumula a maior valorização entre os principais fertilizantes importados pelo Brasil na comparação anual

  • Antecipação de compras: produtores de Mato Grosso seguem travando posições para 2026/27 como estratégia de proteção cambial em ano eleitoral


Tendência: Mercado equilibrado, com menor volatilidade e alta gradual. O KCl continua sendo o produto de maior previsibilidade e conforto para posicionamento.


Produto

Preco CFR (US$/t)

Variacao Semanal

Tendencia

Ureia (granular)

740 a 770

Firme

Alta / Volatil

Sulfato de Amonio

220 a 230

Estável

Neutro

MAP (11-52-00)

880 a 910

Alta forte

Pressão máxima

SSP

Alta +20% a/a

Acumulada

Viés altista

TSP

560 a 590

Estavel

Viés altista

KCl (Cloreto Pot.)

385 a 400

Alta moderada

Alta gradual



Mercado Doméstico: Cautela, PIS/Cofins e redução do consumo


O mercado brasileiro opera em modo defensivo nesta semana. Três fatores nacionais se somam ao ambiente externo de alta:

• PIS/Cofins sobre fertilizantes: desde 1º de abril, a cobrança da contribuição voltou a incidir sobre o setor, elevando o custo de importação e impactando o preço final ao produtor

• Frete mínimo (MP 1.343/2026): a medida provisória sobre frete rodoviário mínimo adiciona custo logístico, pressionando ainda mais o abastecimento no interior

• Consumo em queda: o Rabobank projeta redução de cerca de 2 milhões de toneladas no consumo nacional em 2026 (de 49 para 47,2 mi de t), interrompendo o ciclo de recordes

• Sindiadubos-PR alerta: o sindicato estimou queda de até 15% no mercado de fertilizantes do Paraná em 2026, citando o cenário geopolítico e os novos encargos tributários


Apesar disso, apenas cerca de 30% dos fertilizantes foram adquiridos para a safra 2026/27, abaixo da média histórica. Esse baixo percentual de cobertura representa risco adicional: se os preços se mantiverem ou subirem quando o mercado for às compras entre maio e agosto, o custo de produção pode se agravar.



Cenário Geopolítico: Ormuz, China e Plano Nacional de Fertilizantes


  1. Ameaça no Estreito de Ormuz

    A possibilidade de bloqueio integral do Estreito de Ormuz -- levantada esta semana diante da escalada do conflito EUA/Israel x Irã -- representa um salto de risco para o agronegócio brasileiro. Por Ormuz passa cerca de um quinto do petróleo mundial e uma parcela relevante do gás natural liquefeito. Um fechamento efetivo elevaria abruptamente custos de energia, fretes e produção de nitrogenados. O Brasil, que importa 85% dos fertilizantes que consome, passaria de um cenário de volatilidade de preço para um de risco de abastecimento.


  2. Restrições Chinesas

    A China mantém restrições informais às exportações de nitrogenados e fosfatados, com previsão de duração até ao menos agosto de 2026. Estima-se que entre 40 e 80% dos embarques chineses estejam bloqueados -- equivalente a até 40 milhões de toneladas retiradas do mercado global.


  3. Mapa e Anda discutem Plano Nacional de Fertilizantes

    O ministro André de Paula recebeu nesta semana (15/04) o presidente da Anda para discutir o cenário do mercado e os caminhos para reduzir a dependência externa. O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) tem a meta de elevar a produção nacional para 45%-50% da demanda interna até 2050. A paralisação da Mosaic em Araxá, anunciada nesta semana, vai na direção contrária.


Tendência para maio e junho de 2026

A tendência para as próximas semanas permanece de preços firmes, com risco assimétrico para cima:

• Ureia: estabilidade com viés altista -- qualquer novo leilão indiano ou escala do conflito pressiona imediatamente

• MAP: risco elevado de novos aumentos -- Mosaic Araxá offline e China restrita são combinação crítica

• KCl: alta gradual -- mercado mais previsível, sem perspectiva de queda relevante


O mercado segue extremamente sensível a fatores externos, especialmente ao desfecho do conflito no Oriente Médio e a eventuais anúncios da China sobre afrouxamento das restrições.



Análise Spazio Agro

O cenário desta semana exige estratégia antes de qualquer outra coisa. A combinação de preços máximos no MAP, Mosaic offline, PIS/Cofins e Ormuz sob ameaça cria o ambiente de maior risco de abastecimento desde 2022.• A ureia continua cara e volátil -- compras fracionadas e escalonadas são mais seguras que aposta em queda• O MAP representa o maior risco da carteira -- tanto em preço quanto em disponibilidade física• O KCl oferece maior previsibilidade -- ainda é a melhor opção para posicionamento antecipado

A tomada de decisão passou a ser menos sobre encontrar o preço mínimo e mais sobre gestão de risco e garantia de abastecimento. Quem compra com estratégia hoje protege a margem da próxima safra.


Recomendações para Produtores e Revendas

• Evitar exposição total ao mercado spot -- volatilidade elevada penaliza quem compra tudo de uma vez

• Trabalhar compras escalonadas -- dividir o volume em etapas reduz o risco de timing errado

• Priorizar segurança de abastecimento -- especialmente para MAP, onde o risco de falta física é real

• Monitorar a Mosaic Araxá -- a paralisação pode reduzir a oferta interna de fosfatados e pressionar preços

• Acompanhar desdobramentos do Estreito de Ormuz -- o risco subiu de patamares esta semana


O mercado de fertilizantes na semana de 14 a 20 de abril de 2026 segue firme e com novos elementos de risco incorporados. A paralisação da Mosaic em Araxá, a ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz e a cobrança de PIS/Cofins sobre importações formam um cenário de pressão inédita desde 2022. O consumo nacional deve cair, mas o custo por tonelada aplicada tende a subir -- comprimindo ainda mais as margens no campo.


A volatilidade continua sendo o principal desafio, e decisões estratégicas serão determinantes para o custo final da safra 2026/27.


Fontes: Spazio Agro, Itau BBA, StoneX, CNN Brasil, Farmnews, Reuters, Argus. Precos indicativos CFR Brasil.


 
 
 

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