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Panorama Semanal do Mercado de Fertilizantes

  • Foto do escritor: Ricardo Lima de Souza
    Ricardo Lima de Souza
  • 13 de abr.
  • 6 min de leitura

O mercado global de fertilizantes encerrou esta semana sob forte pressão de dois vetores simultâneos: a continuidade das restrições chinesas às exportações e o impacto acumulado do conflito no Oriente Médio sobre a cadeia de suprimentos de nitrogenados. O resultado é um cenário de alta generalizada de preços, com a ureia atingindo patamares próximos a US$ 700/t nos mercados futuros — os maiores desde 2022 — ao mesmo tempo em que o MAP e o KCL seguem firmes, sustentados pela combinação de oferta apertada e demanda resiliente. O produtor brasileiro enfrenta uma das piores relações de troca dos últimos anos.


Nitrogenados: Ureia em zona de pressão máxima


Ureia

A ureia permanece como o termômetro mais sensível do mercado neste momento. Após semanas de escalada, os contratos futuros na CBOT atingiram próximo a US$ 700/t para o vencimento de abril — o patamar mais alto observado desde 2022 —, e o preço físico no mercado spot caiu marginalmente para cerca de US$ 694/t em 10 de abril, recuo de apenas 0,96% em relação ao dia anterior, sem alterar o quadro estrutural de alta.

A pressão vem de dois lados. Pelo lado da oferta, o conflito entre EUA/Israel e Irã bloqueia rotas críticas pelo Estreito de Ormuz, região responsável por aproximadamente 35% das exportações mundiais de ureia. O Irã, um dos principais fornecedores globais de nitrogenados, tem suas entregas comprometidas. Pelo lado da demanda, o Brasil e a Europa continuam compradores, mas o volume importado pelo Brasil nos dois primeiros meses de 2026 caiu 31% em relação ao mesmo período de 2025 — o menor nível da série histórica desde 2018 —, sinalizando que os altos preços já inibem parte da demanda.

Sinal da semana: Alta estrutural. A volatilidade deve permanecer enquanto o conflito no Oriente Médio persistir. A cautela na compra é compreensível, mas o risco de postergação excessiva existe.


Sulfato de Amônio

O sulfato de amônio acompanhou a pressão dos nitrogenados, com preços que subiram de US$ 205–215/t para a faixa de US$ 220–230/t CFR Brasil em relação ao início de março. A alta é diretamente influenciada pelo encarecimento da amônia e pelo aumento das cotações na China, principal fornecedora do produto para o Brasil.

Sinal da semana: Alta moderada. Produto segue como alternativa ao nitrato de amônio em algumas culturas, mas o prêmio de custo por ponto de nitrogênio merece atenção frente à ureia.


Nitrato de Amônio

Seguiu relativamente estável nesta semana, sem movimentações expressivas de oferta ou demanda que justificassem variações relevantes. O mercado aguarda desdobramentos do conflito para definir tendência nos próximos dias.

Sinal da semana: Estável. Mercado em compasso de espera.



Fosfatados: Oferta apertada e risco de déficit para 2026/27


MAP (Fosfato Monoamônico)

O MAP é um dos produtos que mais preocupam o mercado brasileiro neste momento. Com os preços físicos oscilando entre US$ 730 e US$ 850/t CFR Brasil nas últimas semanas — alta de até 17% no último mês —, o fertilizante fosfatado mais utilizado nas lavouras de soja e milho acumula uma valorização expressiva no ano.

O principal driver é estrutural: a China restringiu suas exportações de fosfatados, com restrições que podem durar até meados do segundo semestre de 2026. O país asiático foi responsável por 11,5% das importações brasileiras de fertilizantes em 2025 e, com as restrições vigentes, estima-se que entre 40 e 80% das exportações chinesas de fosfatados estejam sob bloqueio ou cota rígida. Para o Brasil, o Ministério da Agricultura alertou para um risco real de déficit entre 1 e 3 milhões de toneladas de fosfatados em 2026, o que poderia comprometer a produtividade das safras 2026/27.

Em resposta, o Brasil já vem diversificando importações para SSP e TSP, que têm menor concentração de fósforo por tonelada mas preços mais acessíveis.

Sinal da semana: Alta. Mercado firme com risco de aperto de abastecimento. Decisões de compra que puderem ser antecipadas merecem atenção.


Superfosfato Triplo (TSP)

O TSP manteve estabilidade relativa, sendo negociado na faixa de US$ 560–590/t CFR Brasil. Com o aumento das restrições chinesas ao MAP, parte da demanda migrou para o TSP, sustentando suas cotações sem provocar variações abruptas nesta semana.

Sinal da semana: Estável com viés de alta. Demanda substituta ao MAP pode pressionar preços nas próximas semanas.


Superfosfato Simples (SSP)

O SSP registrou alta próxima a 20% na comparação com o mesmo período de 2025, segundo dados da StoneX. Com os fosfatados concentrados sob maior pressão de oferta, o SSP ganhou relevância como alternativa mais acessível, especialmente para produtores que buscam equilibrar custos na formulação de adubação.

Sinal da semana: Alta acumulada expressiva. Produto segue como válvula de escape frente ao MAP, mas o prêmio de preço por unidade de P₂O₅ deve ser calculado com cuidado.



Potássicos: KCL firme, Canadá ganha relevância


Cloreto de Potássio (KCL)

O KCL é o produto que registrou a maior alta acumulada entre todos os fertilizantes na comparação anual, com valorização próxima a 20% nos portos brasileiros em relação ao início de 2025, de acordo com a StoneX. Atualmente, as cotações se mantêm próximas de US$ 370–383/t CFR Brasil, nível relativamente estável na semana mas bem acima dos patamares do ano anterior.

O mercado de potássio segue firme por razões distintas dos demais nutrientes: o contrato firmado pela China com fornecedores canadenses deu suporte ao piso global de preços. Adicionalmente, a restrição de exportações chinesas afetou também misturas com potássio, reduzindo a disponibilidade global. No Brasil, o KCl segue sendo o produto mais procurado para compras antecipadas da safra 2026/27, com produtores de Mato Grosso já tendo travado parcela significativa de suas necessidades — um movimento de proteção cambial em ano eleitoral.

O Canadá ganhou relevância como fornecedor para o Brasil nos primeiros meses de 2026, à medida que a dependência de outros fornecedores foi reduzida por circunstâncias geopolíticas.

Sinal da semana: Firme. Preços sustentados por fundamentos sólidos de oferta e demanda. Quem ainda não travou posição para 2026/27 deve considerar o momento.



Resumo de Preços CFR Brasil — Semana 07–13/04/2026


Produto

Preço (US$/t CFR)

Variação / Tendência

Ureia (granular)

~694–710

↑ Alta estrutural

Sulfato de Amônio

220–230

↑ Alta moderada

Nitrato de Amônio

Estável

→ Estável

MAP (11-52-00)

730–850

↑ Alta forte

TSP

560–590

→ Estável / viés ↑

SSP

Alta ~20% a/a

↑ Alta acumulada

KCL (Cloreto de Pot.)

370–383

↑ Alta acumulada a/a

Fontes: CNN Brasil / Itaú BBA, StoneX, Reuters, Farmnews, Argus, TradingEconomics (CBOT). Preços indicativos.



Cenário Geopolítico: Os dois grandes vetores de risco


1. Conflito no Oriente Médio e o Estreito de Ormuz

O conflito EUA/Israel × Irã permanece como o principal fator de instabilidade do mercado de fertilizantes nitrogenados. O Oriente Médio concentra cerca de 40% das exportações mundiais de ureia, e o eventual bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz — por onde escoam os embarques da Arábia Saudita e do Irã — representaria um choque severo de oferta global. O Ministério da Agricultura brasileiro (Mapa) já classificou a situação como urgente, com risco real de desabastecimento caso o conflito persista por seis meses ou mais. A Arábia Saudita foi responsável por 24% das importações brasileiras de MAP em 2025.


2. Restrições Chinesas às Exportações

A China, terceiro maior fornecedor de fertilizantes para o Brasil (11,5% das compras em 2025), formalizou restrições às exportações de nitrogenados e fosfatados sem anúncio oficial. A medida visa isolar o mercado interno chinês da escalada de preços e priorizar a segurança alimentar doméstica. Fontes do setor em Xangai indicam que as restrições não devem ser suspensas antes de agosto de 2026, após o pico de plantio da safra de primavera chinesa. Estima-se que entre 40 e 80% das exportações chinesas de fertilizantes estejam atualmente bloqueadas ou sob cotas rígidas — o que equivale a até 40 milhões de toneladas retiradas do mercado global.



Relação de Troca: O campo sente no bolso

A combinação de preços mais altos de fertilizantes e valorização limitada das commodities agrícolas gerou uma piora significativa na relação de troca para o produtor brasileiro. De acordo com a Consultoria Agro do Itaú BBA, em 2026:

  • Para soja: são necessárias 35 a 40 sacas por tonelada de ureia (vs. 28–32 em 2025)

  • Para soja: 30 a 35 sacas por tonelada de MAP (vs. 25–30 em 2025)

  • Para milho: 60 a 70 sacas por tonelada de ureia (vs. 50–60 em 2025)

  • Para o boi gordo: 14 a 18 arrobas por tonelada de MAP (vs. 12–15 em 2025)

A piora da relação de troca reduz a capacidade de investimento do produtor e amplia a exposição ao risco financeiro, tornando o planejamento de compras ainda mais estratégico.



Perspectivas para as Próximas Semanas

O mercado segue em modo de alta alerta, com múltiplas variáveis em aberto. Os principais pontos a monitorar são:

  • Desdobramentos do conflito no Oriente Médio e eventual abertura ou bloqueio do Estreito de Ormuz;

  • Comunicado oficial (ou confirmação informal) sobre a extensão das restrições chinesas pós-agosto;

  • Possível novo leilão de compra de ureia pela Índia — qualquer anúncio pressiona imediatamente as cotações globais;

  • Comportamento do real frente ao dólar em ano eleitoral, determinante para o preço final ao produtor;

  • Velocidade de posicionamento do mercado doméstico para a safra 2026/27 — quem antecipou KCl em patamares históricos favoráveis já tem vantagem.

A volatilidade atual exige leitura constante do cenário. O momento não é de apostas — é de estratégia. Quem puder ancorar parte do custo de produção agora, reduz exposição a um mercado que pode surpreender tanto para cima quanto para baixo dependendo de como o conflito evolui.



Este panorama é produzido com base em fontes públicas de mercado (StoneX, Itaú BBA, Reuters, Argus, CNN Brasil, Farmnews).

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