Mercado de fertilizantes: cessar-fogo não derrubou os preços — logística continua sendo o principal problema
- Ricardo Lima de Souza

- 4 de mai.
- 5 min de leitura
O mercado de fertilizantes viveu uma semana importante entre 27 de abril e 3 de maio de 2026. O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã gerou expectativa de queda nos preços, mas isso não aconteceu.
Na prática, o mercado mostrou que o problema vai além do conflito militar. Hoje, o principal gargalo é a logística mundial: menos navios disponíveis, fretes mais caros, atrasos nos embarques e congestionamento nas rotas marítimas continuam sustentando os preços em níveis elevados.
Ao mesmo tempo, a Agrishow 2026 confirmou um cenário de cautela no campo. Mesmo com boa visitação, os negócios caíram 22% em relação ao ano passado, mostrando um produtor mais defensivo, preocupado com margem apertada, commodities mais fracas e insumos caros.
O principal recado da semana: cessar-fogo não salvou o mercado
Muita gente esperava que os fertilizantes caíssem junto com o petróleo depois do cessar-fogo entre EUA e Irã. Não caíram. Pelo contrário — continuaram subindo.
Segundo análise da Universidade de Illinois, o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz ainda opera 88% abaixo dos níveis pré-conflito, mesmo após o fim das hostilidades. O armistício encerrou a guerra. Não encerrou o gargalo.
Na prática, isso pressiona toda a cadeia:
disponibilidade de navios segue crítica
frete marítimo 10% a 20% mais caro
seguros e prêmios de risco elevados
contratos represados formando fila nos portos
O mercado físico não segue o mercado financeiro. E é o físico que abastece o campo.
O que torna tudo isso ainda mais urgente: de maio a dezembro, o Brasil recebe cerca de 70% de toda a ureia importada no ano — justamente o insumo mais afetado pelo gargalo logístico. É agora que o produtor define o custo da safra 2026/27. E é agora que o mercado está mais caro, mais lento e com menos margem para esperar.
Ureia: firme, cara e sem sinal de queda
US$ 720 a US$ 760/t CFR Brasil
Mesmo com o petróleo recuando, a ureia não seguiu. O motivo é estrutural: o gás natural — matéria-prima do fertilizante — continua escasso nas rotas do Golfo, três plantas iranianas seguem paralisadas e a logística marítima ainda não normalizou.
Resultado direto no campo: o custo por hectare subiu entre 8% e 15%, dependendo da cultura, segundo o Instituto do Agronegócio. O mercado pode até parar de correr. Mas cair de forma expressiva no curto prazo? Não existe esse sinal hoje. Quem esperar a grande correção pode acabar comprando mais caro — e com menos produto disponível.
MAP: o produto mais preocupante do mercado hoje
US$ 870 a US$ 920/t CFR Brasil
O MAP não é só um problema de preço. É um problema de disponibilidade.
China restringindo exportações, manutenção industrial no Marrocos, enxofre caro e logística internacional lenta formam uma combinação que não se resolve rápido. Soma-se a isso a dependência do Brasil da região do Golfo para importação de fosfatados — exatamente a área mais afetada pelo gargalo logístico. O risco de dificuldade de abastecimento nos próximos meses é real.
Muitos produtores já respondem a isso fracionando compras, reduzindo exposição ao spot e complementando com SSP e TSP. É uma saída inteligente de caixa — mas com limite agronômico claro: SSP e TSP não substituem o MAP em eficiência por hectare. Compensam parte, não o todo.
Aqui a decisão mais arriscada não é comprar caro. É não ter produto.
KCl: ainda o mais estável — mas a janela está diminuindo
US$ 390 a US$ 410/t CFR Brasil
O KCl segue sendo o produto mais previsível da carteira. Alta gradual, menor volatilidade, negociações mais organizadas. Ainda existe espaço para negociar melhor do que nos outros nutrientes.
Mas o Rabobank acende um alerta importante: muitos produtores estão adiando compras de potássio para priorizar ureia e MAP. Se esse movimento se concentrar no segundo semestre, a demanda represada pode pressionar preço e prazo de entrega num momento de menor margem de manobra.
Ainda dá para negociar melhor o KCl. Mas a janela também está se fechando.
Agrishow 2026: o campo mostrou sua cautela
Os números da feira disseram tudo: negócios caíram de R$ 14,6 bilhões para R$ 11,4 bilhões — queda de 22% em relação ao ano anterior. O público se manteve. O dinheiro, não.
O produtor que passou pela Agrishow este ano estava olhando mais do que comprando. Commodities fracas, fertilizantes caros, crédito apertado e margem comprimida criaram um ambiente de contenção. Quem podia adiar, adiou.
A Agrishow não mentiu: o campo está cauteloso, não parado. Mas cauteloso tem limite — e esse limite chega com o plantio.
Mercado brasileiro: a conta chega agora
De maio a agosto, o produtor define o custo da safra 2026/27. Não tem como escapar desse calendário.
O problema é que hoje apenas 30% dos fertilizantes foram comprados para o próximo ciclo. A maioria ainda está descoberta — num momento em que os preços estão altos, a logística lenta e o abastecimento pode apertar ainda mais. A necessidade da safra não some porque o produtor adiou a decisão. Ela só acumula.
Quem comprar por necessidade em agosto vai pagar o preço da urgência. Quem se posicionar agora ainda tem alguma margem de escolha.
O verdadeiro problema: a logística mundial
A semana do cessar-fogo revelou algo importante: o conflito militar era o gatilho, não a causa. O problema real é estrutural — e está na logística.
Fretes mais caros, falta de navios, atrasos nos embarques e contratos acumulados não se resolvem com um armistício. Segundo StoneX e Argus, a normalização das rotas ainda pode levar de 60 a 90 dias — mesmo com melhora geopolítica.
O mercado físico continua pressionado. E é o mercado físico que abastece o campo.
O que esperar de maio a agosto
Ureia — deve seguir firme, sem espaço para quedas expressivas enquanto a logística não melhorar. A demanda sazonal brasileira entra agora, pressionando de baixo para cima.
MAP — segue como a principal preocupação. O risco físico continua crescendo: China restrita, Marrocos em manutenção, Golfo com logística lenta. Preço alto e produto escasso é a combinação mais perigosa.
KCl — trajetória de alta gradual e comportamento mais previsível. Ainda o produto com maior conforto para posicionamento.
Amônia — continua pressionada, impactando diretamente o custo de produção da ureia e do MAP nos próximos meses.
Visão prática para o produtor
Ureia — não espere queda forte. Aproveite oportunidades pontuais e evite ficar totalmente descoberto.
MAP — abastecimento é prioridade máxima. A disponibilidade pode virar um problema maior do que o preço.
KCl — ainda permite uma estratégia mais confortável. Compras escalonadas seguem sendo a melhor alternativa.
A principal mensagem da semana é clara: o cessar-fogo não resolveu o mercado de fertilizantes. Os preços seguem altos porque o verdadeiro problema hoje é logístico.
Ao mesmo tempo:
o produtor continua cauteloso
as compras seguem atrasadas
e a safra 2026/27 vai exigir fertilizantes independentemente do cenário do mercado.
Quem se posicionar com estratégia agora tende a proteger melhor sua margem. Quem esperar demais pode enfrentar preço mais alto — ou dificuldade de abastecimento.
Fontes: Exame Agro, Universidade de Illinois, Rabobank, CNN Brasil, Farmnews, StoneX, Agrishow 2026, Instituto do Agronegócio, Itatiaia. Preços indicativos CFR Brasil.



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